Domingo, 18 de Abril de 2010

O Jovem Socialista conta com um post de um/a convidado/a por semana . Esta é uma forma tornar este blogue um espaço ainda mais aberto e pluralista. Esta semana, o convidado é Pedro Ruas, Presidente da Federação de Setúbal da Juventude Socialista.

 

Os perigos da urbanização do mundo e esvaziamento do espaço rural 

 

As primeiras cidades, surgidas na antiga Mesopotâmia há apenas cerca de 5 a 7 mil anos, introduziram uma nova ordem espacial para a humanidade, mas durante séculos continuaram em pouco número em todo o mundo e durante séculos foi à ruralidade que coube a liderança populacional.

 

Mas recuemos até ao aparecimento da agricultura, uma das genialidades da raça sapiens sapiens, que terá permitido fixar as primeiras aldeias e assim transformar em sedentária a humanidade, criando comunidades de vizinhos. O desenvolvimento da agricultura permitiu também um crescimento considerável na população, criou a segurança grupal em abrigos e permitiu libertar a energia que despendiam em longas caminhadas para o investimento na tecnologia, consolidando as aldeias. Progressivamente as aldeias foram crescendo, e com o desenvolvimento da tecnologia, foram surgindo as primeiras profissões especializadas, os primeiros serviços comunitários, as primeiras organizações de pessoas e as lideranças religiosas, políticas, culturais, sociais e económicas.

 

Na Idade Média, a vivência nas cidades era símbolo de liberdade, em contraposição aos que viviam nos campos e dependiam dos senhores feudais. E por esta altura, algumas aldeias crescem e absorvem as populações rurais vizinhas, embora a grande maioria continuasse a viver nos campos. 

 

Foi só mais tarde, com o advento da Revolução Industrial, que as cidades conheceram um novo capítulo na sua história. Estimulada pelas inovações tecnológicas, pelas descobertas na saúde, e pelo aumento da riqueza, a urbanização começou na Europa e universalizou-se com a chegada das fábricas a todo o planeta. A população urbana não parou de crescer desde então e a concentração nas cidades foi aumentando de acordo com as crises económicas e com o crescimento populacional.

 

Nos dias de hoje assistimos a uma mudança clara no paradigma da ocupação e antropologia humana do espaço: pela primeira vez, em 2008, a população urbana ultrapassa a população rural e a concentração nas cidades cria uma nova forma de estar e olhar o mundo, penalizando a agricultura e produção de bens alimentares.

   

De acordo com a ONU, em 2008 cerca de 3,3 mil milhões de pessoas residiam em cidades, das quais um sexto em bairros de lata e a maioria em cidades costeiras, ameaçadas pelo aquecimento global.

   

Aquilo que acontece hoje no interior de Portugal, acontece em paralelo um pouco por todo o mundo rural do Ocidente, mas acontece também em países cujos índices de desenvolvimento nos indicariam que não. Quase todos os países africanos e asiáticos já apontam uma população urbana de monta considerável. As latitudes apresentarão diferentes contornos nas razões, mas a verdade é que é um facto da ocupação humana e a tendência será o agudizar desse diferencial, agora já não pelo êxodo rural, mas sim pelo crescimento natural das cidades.

   

O que assistimos no interior do país é justamente o que se assiste em todo o mundo: o esvaziamento dos campos, das aldeias e vilas e a concentração populacional nas cidades.

 

Contudo, a urbanidade nos dias de hoje não deixa de privilegiar a vivência e a qualidade de vida oferecida pelos campos e só pode sobreviver porquanto for existindo a possibilidade de usufruir dessa qualidade de vida e do que a ruralidade pode continuar a oferecer.

   

Para os que acreditam e defendem o esvaziamento do interior, usam como argumento que a concentração populacional nas urbes levará a uma redução substancial na rede de serviços públicos e a uma consequente qualificação, uma vez que a população está concentrada, levará também a um aumento no tipo de serviços ao dispor em cada núcleo urbano, uma vez que mais pessoas significarão mais e melhores respostas, libertando os campos para a preservação ambiental, tão cara aos citadinos. O que se esquecem é que sem população rural, não há agricultura, não há produção agrícola, não há ocupação e tratamento do solo e há o agravamento da crise económica, a perda de identidade do povo português e o crescimento desenfreado de selvas de pedra, que mais não passam de aglomerados de betão. Em Portugal, 178 municípios, situam-se no interior, o que significaria que uma parte significativa do país ficará, a médio prazo, desprovida de qualquer cuidado.

 

E é por isso que importa travar este movimento de desertificação, é preciso parar de gerir o país só com números e estatísticas, é preciso repensar o modelo de desenvolvimento para o país, fundamentando a sua intervenção no equilíbrio e na coesão social e territorial.

 

Os dirigentes e líderes políticos devem ter a capacidade e o discernimento para separar o que é verdadeiramente essencial do que é acessório, concentrando esforços no que é estruturante para as comunidades rurais. Ora bem, terá sido justamente aí que a ruralidade falhou, porque não teve a coerência para definir, planear e estruturar a longo prazo, auto-castrando qualquer hipótese de sobrevivência. As poucas aldeias que foram resistindo apresentam-se hoje envelhecidas, sem projectos de futuro, e sem qualquer visão de progresso. As nossas aldeias, particularmente as do Alentejo, não se modernizaram, como as da Alemanha ou da Holanda, não criaram emprego, mas ainda mais penalizador: não definiram um caminho de futuro, procuraram apenas sobreviver.

 

Defendo e acredito que só com políticas de médio e longo prazo será possível ao interior recuperar o seu ritmo de progresso, que só com intervenções cirúrgicas poderá ser possível recuperar a robustez da ruralidade, tão importante ao país.

 

E a inflexão desta tendência só é possível se o interior for tomado em conta na decisão política, se os líderes políticos tiverem a consciência de que existe um espaço rural no país, para além das cidades e do litoral, de que existe, e deve existir, uma ruralidade que preserve os campos e garanta a produção de alimentos.

 

O investimento nas acessibilidades, que aliás tem sido feito ao longo dos últimos anos pelo Governo do PS, é um sinal claro da preocupação com o interior, os benefícios fiscais já concedidos às empresas que se fixam no interior também é um sinal claro da vontade política em interromper este ciclo de concentração urbana, mas é preciso mais para equilibrar os ritmos de desenvolvimento. A decisão deve ser mais corajosa que o peso da demografia, deve ser consistente com o princípio de que devemos ter um país coeso, com equilíbrio territorial, e que garanta aos seus cidadãos os mesmos níveis na qualidade de vida e a liberdade de poder escolher entre viver nos campos ou viver nas cidades.

 

Pedro Ruas

 



David Erlich às 23:29 | link do post

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Começa amanha a primeira fase de
acesso ao ensino superior público
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Em nove meses de legislatura
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Mesmo após o aviso do presidente
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A bancada com mais faltas é
a do PSD, que é responsável por cerca
de metade das faltas desde o início
da legislatura, seguida pelo CDS.
Os motivos apresentados são
variados mas as faltas continuam
a incidir sobre feriados com
pontes, como o 10 de Junho.
A assiduidade tem, contudo,
vindo a melhorar, com mais controlo
por parte do presidente da Assembleia.



Inês Mendes, 12/07/2010
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