Domingo, 12 de Julho de 2009

Num debate recente, proporcionado pela minha condição de comentador do programa Vice-Versa na RTPN, o Deputado Jorge Neto (PSD), meu opositor de ocasião, comentou com grande seriedade o episódio que levou à demissão de Manuel Pinho, chamando à atenção para o “Big Brother” permanente em que se transformou a política nacional nos dias de hoje e para a crueldade que daí resulta.

De facto, um gesto irreflectido de Manuel Pinho marcou o debate do Estado da Nação. Por muito que me custe constatar esse facto, sei que é essa a percepção imediata dos portugueses. Uma percepção que se acalmará com o tempo.

O debate do Estado da Nação foi um confronto entre políticas e propostas do Governo, discutíveis mas concretas, com um apagão táctico das oposições, temendo que qualquer ideia lhe perturbe a acumulação de descontentamentos difusos com que planeiam vencer as eleições que se aproximam.

Tirando o incidente que marcou o debate, a essência da discussão marcou o fim do Estado de Graça de Paulo Rangel e do PSD, conseguidos com o resultado das eleições europeias. Além do mais a situação criada pelo momento infeliz de Manuel Pinho foi debelada com dignidade por todos os intervenientes e resolvida com rapidez e ponderação por José Sócrates.

Mas mais importante do que tudo isso é sublinhar que a forma não pode esconder a substância. Manuel Pinho pode ter tido momentos de menos auto controlo na comunicação e na expressão, mas fez obra meritória no desempenho do seu cargo. Foi visionário na forma como colocou, com a sua equipa, Portugal na fronteira tecnológica em sectores chave, de que as energias renováveis são o melhor exemplo. Foi pragmático na maneira como traduziu essa visão em oportunidades de negócio para as empresas portuguesas e em âncoras para a internacionalização da nossa economia.

No dia a seguir à demissão de Manuel Pinho muitas foram as vozes que não se coibiram de afirmar que o legado deste Ministro da Economia vai muito para além da imagem caricata que a parafernália mediática espalhou pelo mundo. É também essa a minha opinião.

Mas a análise deste episódio conduz-nos a reflexões mais profundas. Qual é a hoje a fronteira entre o público e o privado na vida política. Qual o peso relativo entre o que se faz e o que se aparenta. Será a política um palco e uma encenação onde só sobrevivem os bons actores. Quais as consequências deste contexto de exposição permanente para o exercício da politica como acção persistente de mudança?

Tenho sobre isto uma opinião clara. Os políticos hoje não podem ignorar que a casa da democracia é escrutinada sem fronteiras entre a transparência pública e o direito à privacidade. Não podem ignorar isso, mas têm que actuar como se não fosse assim e fazer as mudanças estruturais que forem necessárias, confrontando interesses e fazendo escolhas. Só assim marcarão a sua passagem pela “casa” com dignidade, independentemente da forma como dela forem levados a sair.



Luís Pereira às 01:03 | link do post | comentar

2 comentários:
De Dark Side a 13 de Julho de 2009 às 15:12
Não sabemos se haverá ingenuidade em desejar moral na política e se não terá havido em qualquer nação governantes em que o carácter e a dignidade pessoal tenham julgado de um dever entrar também na vida pública, regrando processos de administração. Não sabemos.
O que sabemos é que a desordem e imoralidade políticas têm um efeito corrosivo na alma das nações. E o abastardamento do carácter nacional não pode deixar de influir no desenvolvimento e progresso de um povo, sob qualquer aspecto que o queiramos considerar.


De Dark Side a 17 de Julho de 2009 às 12:10
É natural que alguns homens educados para a luta puramente política, as especulações demagógicas, as exaltações emocionais das massas populares, e por esse motivo propensos a reduzir a vida da Nação à agitação própria e das forças partidárias que lhes restam, não tenham revelado compreensão nem dado mostras de adaptar-se. Mas a Nação que faz livremente a vida que quer, a Nação viva e real, essa, comparando passado e presente, olha com certa desconfiança o zelo destes apóstolos da liberdade


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Ensino Superior com mais vagas

Começa amanha a primeira fase de
acesso ao ensino superior público
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O Governo assinou em Janeiro
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garante mais fundos com o
compromisso de que se aumentem
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Deputados ausentes

Em nove meses de legislatura
podem ser contabilizadas 652 faltas.
Mesmo após o aviso do presidente
da Assembleia da República, Jaime
Gama, em que diz que não se aceitam
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existir uma media elevada
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A assiduidade é um dos factores
que mais descredibiliza os deputados,
e toda a politica representativa.
A bancada com mais faltas é
a do PSD, que é responsável por cerca
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da legislatura, seguida pelo CDS.
Os motivos apresentados são
variados mas as faltas continuam
a incidir sobre feriados com
pontes, como o 10 de Junho.
A assiduidade tem, contudo,
vindo a melhorar, com mais controlo
por parte do presidente da Assembleia.



Inês Mendes, 12/07/2010
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