Quinta-feira, 6 de Maio de 2010

Os tiros nos pés protagonizados pelo meu partido, o PS – aquele que acredito ter a matriz genética mais adequada para avançar o País – são problemas causados pelo mesmo, sem necessidade, sem justificação ética, sem visão estratégica, de forma impopular e, por isso, penalizadora eleitoralmente.

 

Com um PSD que finalmente ameaça assumir-se como alternativa, o que é só é bom para a democracia pois a concorrência aumenta a qualidade, o PS não mais se pode dar ao luxo de protagonizar estes tiros nos pés.

 

Dou, seguidamente, exemplo de dois desses tiros nos pés.

 

O caso de Inês de Medeiros começou mal muito antes de se ter tornado polémico, já que em prol de uma real representatividade democrática e coerência parlamentar, a Senhora Deputada, morando em Paris, devia ter sido eleita pelo círculo eleitoral da Europa, e não pelo de Lisboa, tal como aconteceu. Aí reside a verdadeira questão; o facto de lhe serem pagas as viagens Paris/Lisboa não é errado per si; ao invés, é errado porque lhe estariam a ser pagas as viagens para e de um local pelo qual ela não foi eleita. E, aí, deturpa-se o conceito que preside à questão dos pagamentos das viagens em geral, pois uma coisa é pagar as viagens de um deputado para e do sítio por onde foi eleito, tratando-se assim de um pagamento que beneficia a qualidade democrática e a proximidade dos deputados face aos eleitores, e outra coisa é, simplesmente, pagar a viagem trabalho-casa a qualquer deputado/a independentemente de onde ele/a mora. As viagens de Inês Medeiros, a serem pagas, não seriam um investimento na democracia, mas sim uma simples, exagerada, injustificada e inconsequente regalia laboral. O PS ganhou esta batalha, e conseguiu o pagamento das viagens. Nós, Socialistas, ganhámos assim uma batalha impopular, na qual não tivemos razão, inútil, inconsequente e insignificante. Tudo isto para, no fim, a Senhora Deputada rejeitar, afinal, as viagens. O eleitor comum não vê o PS apostar numa verdadeira reforma eleitoral, que é tão necessária, mas vê o PS envolver-se em polémicas inúteis e das quais a imagem do nosso Partido sai claramente danificada. Eis um tiro no pé.

 

O outro tiro no pé que aqui destaco relaciona-se com a actividade do Senhor Deputado Ricardo Rodrigues, por quem nutro todo o respeito. Ele é, sublinhe-se, um homem livre e inocente de qualquer crime – não é isso que está em causa, e acusá-lo de alguma actividade criminosa passada é desacreditar a justiça portuguesa. O que aqui está em causa é a resposta à seguinte pergunta, resposta essa que, pelo menos de forma clara e fundamentada, com certeza não existirá: porque é que o PS escolheu para protagonista parlamentar uma pessoa demasiadamente agressiva, crispada, que criou offshores quando o nosso Partido é contra as mesmas, que participou em negociatas duvidosas, que está sempre zangado, que faz escárnio de camaradas em pleno Parlamento e que tem um carácter suficientemente frágil para furtar gravadores a jornalistas? O PS está repleto de militantes com capacidade e perfil para o combate parlamentar; camaradas dialogantes, positivos, que encaram os desafios com alegria, espírito mobilizador e carisma. Escolher Ricardo Rodrigues para ser uma das caras do nosso Partido é um tiro no pé. Independentemente das circunstâncias, das perguntas feitas, do desrespeito levado a cabo, um deputado do Partido que fez nascer a democracia em Portugal não pode furtar material jornalístico; é, arrisco-me a dizer, vergonhoso. Temos, Socialistas, de nunca nos esquecer que o respeito pelas normas democráticas não é um meio para atingir um fim; o respeito pelas normas democráticas é um fim em si mesmo. Se atropelamos o espírito da democracia – e furtar jornalistas é claramente um atropelo –, tudo fica distorcido à partida, pois a tolerância e o diálogo são valores que devem ser respeitados enquanto fins em si mesmos. O grande desafio da ética republicana é segui-la mesmo quando isso não nos é favorável. O grande desafio da política é fazer com que o poder esteja ao serviço das ideias, e não as ideias ao serviço do poder. Nós, Socialistas, não podemos querer exercer o poder pelo poder. Temos de querer exercer o poder pela grandiosidade das ideias de justiça, liberdade e solidariedade que servimos. Temos de querer o poder pela mudança que podemos causar na sociedade através do seu exercício. E, certamente, a sociedade na qual me revejo não é uma em que deputados furtam jornalistas, por mais ousadas que as perguntas destes possam ter sido.

 

Acredito que o PS é a força política com mais potencial para servir os ideais que as populações precisam de ver, cada vez mais, concretizados na realidade. Dedico horas e horas da minha vida à JS e ao PS, sabendo sempre, de forma altruísta, que aquilo que conta é aquilo que posso dar ao PS e JS e não aquilo que os mesmos me podem dar a mim. Sei que há, nos partidos em geral e o nosso não foge à regra, pessoas que estão num partido de forma seguidista, com medo da discordância, e que se esquecem que isso não é servir o Partido. Estar num partido perdendo a voz crítica não é servir verdadeiramente o Partido, tal como não podemos ajudar uma pessoa se continuamos a aplaudi-la e incentivá-la mesmo sabendo que a mesma se dirige para um buraco. Aqueles que com tudo concordam podem ser aqueles que, enquanto o barco se afunda, continuam a aplaudir a tripulação, ignorando a água que entra por todos os lados. O caminho de sucesso do PS fez-se e far-se-á através do diálogo, através da detecção de erros no presente para a construção eficaz do futuro. Por isso digo: basta de tiros nos pés. A impopularidade causada por medidas necessárias e corajosas é útil e nobre. A impopularidade merecida, inútil e criada pelos nossos próprios tiros nos pés, tem de ser combatida. A impopularidade originada por causas que seguimos é um acto de determinação. A impopularidade originada por polémicas que criamos é um acto de auto-flagelação. Basta de tiros nos pés.

 

Socialistas, estejamos à altura, a cada momento, da nossa História e do País que queremos servir. Em cada desafio, desde a mais pequena freguesia até ao maior dos sonhos europeus, vivamos segundo os ideais republicanos e democráticos que sempre nos fizeram liderar a evolução de Portugal. Sigamos as ideias de liberdade, solidariedade e pluralismo não só como metas abstractas mas também como imperativos éticos do quotidiano político. Vivamos, a cada instante, segundo a eternidade dos valores que prosseguimos.

 

Nota: um leitor do blogue levantou uma vez a questão de algumas das opiniões que expresso estarem em discordância com as linhas gerais do PS. Aproveito para esclarecer aqui que, segundo o pluralismo que caracteriza a JS, nomeadamente a nível deste blogue, as opiniões que podem ser lidas no mesmo são emitidas livremente e apenas vinculam os seus respectivos autores.



David Erlich às 20:29 | link do post

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Inês Mendes, 12/07/2010
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